SOLO FÉRTIL surge da necessidade de falar sobre o vazio, o aparente zero. Da densidade do espaço moldada pela massa de um único músculo que se move meticulosamente. Deste zero que é, ao mesmo tempo, palco de um diálogo entre corpo e as partículas (invisíveis) que o rodeiam. Uma ninfa, fauno, animal ou besta – os olhos não sabem desvendar. Talvez o corpo de uma mulher que
mergulha na areia e se lava na água salgada. Um corpo no precipício a ponderar o salto – o ir ou ficar. A partir do estudo sobre o sensível surge um momento sobre a solidão, sobre o acto de isolar e potenciar, através da comunicação não verbal, o eco de um gesto minimal, a possibilidade de um big-bang no espaço que este ocupa. Dá-se o habitar o ar rarefeito, com a tentativa de o transportar para cena com leveza e minúcia.
SOLO FÉRTIL
TEATRO DO CAMPO ALEGRE — SALA ESTÚDIO — 03/04DEZMMXXII
UMA PARTÍCULA ELEMENTAR RODA, NUM EIXO INDETERMINADO, PORQUE IRRELEVANTE, SOBRE SI MESMA. EXISTIR, AINDA QUE NUM PLANO SUB-ATÓMICO, IMPLICA MOVIMENTO. A PARTÍCULA GIRA NO ÚNICO CONTEXTO EM QUE NÃO PRECISA DE ESPAÇO PARA QUE EXISTA MOVIMENTO: O MOVIMENTO DE ROTAÇÃO QUE NÃO IMPLICA O DESLOCAR DO PONTO A PARA O PONTO B. TODOS OS OUTROS MOVIMENTOS NECESSITAM DE ESPAÇO E DE PONTOS DE REFERÊNCIA – OUTROS CORPOS – PARA A VERI?CAÇÃO DESSE MESMO MOVIMENTO. AO RODAR, A PARTÍCULA CRIA O TEMPO. SEM TEMPO NÃO EXISTE MOVIMENTO. QUANDO RODA SOBRE SI MESMA, A PARTÍCULA PROJECTA-SE NUM MOMENTO DIFERENTE DO ANTERIOR. VIBRA COM A SUA PROJECÇÃO NO TEMPO. A VIBRAÇÃO, PARA EXISTIR, PRECISA DE ESPAÇO ONDE PROJECTAR AS SUAS ONDAS. (…) E, O QUE ACONTECERIA SE A PARTÍCULA ELEMENTAR RODASSE, NÃO APENAS SOBRE UM EIXO, MAS, SIMULTANEAMENTE, SOBRE MÚLTIPLOS EIXOS? PORQUE DEVEMOS ESPERAR ORDEM NESTA PARTÍCULA? NÃO ESTÁ AINDA SUJEITA AO ESPAÇO E TEMPO, AS QUATRO DIMENSÕES QUE NOS PRENDEM. NUNCA ESTARÁ SUJEITA À NORMA QUE CRIA PARA NÓS, CORPOS QUE APENAS PODEM MOVER-SE PARA TRÁS, FRENTE, PARA OS LADOS, PARA CIMA E MAIS ABAIXO AINDA.UMA PARTÍCULA ELEMENTAR RODA, NUM EIXO INDETERMINADO, PORQUE IRRELEVANTE, SOBRE SI MESMA. EXISTIR, AINDA QUE NUM PLANO SUB-ATÓMICO, IMPLICA MOVIMENTO. A PARTÍCULA GIRA NO ÚNICO CONTEXTO EM QUE NÃO PRECISA DE ESPAÇO PARA QUE EXISTA MOVIMENTO: O MOVIMENTO DE ROTAÇÃO QUE NÃO IMPLICA O DESLOCAR DO PONTO A PARA O PONTO B. TODOS OS OUTROS MOVIMENTOS NECESSITAM DE ESPAÇO E DE PONTOS DE REFERÊNCIA – OUTROS CORPOS – PARA A VERI?CAÇÃO DESSE MESMO MOVIMENTO. AO RODAR, A PARTÍCULA CRIA O TEMPO. SEM TEMPO NÃO EXISTE MOVIMENTO. QUANDO RODA SOBRE SI MESMA, A PARTÍCULA PROJECTA-SE NUM MOMENTO DIFERENTE DO ANTERIOR. VIBRA COM A SUA PROJECÇÃO NO TEMPO. A VIBRAÇÃO, PARA EXISTIR, PRECISA DE ESPAÇO ONDE PROJECTAR AS SUAS ONDAS. (…) E, O QUE ACONTECERIA SE A PARTÍCULA ELEMENTAR RODASSE, NÃO APENAS SOBRE UM EIXO, MAS, SIMULTANEAMENTE, SOBRE MÚLTIPLOS EIXOS? PORQUE DEVEMOS ESPERAR ORDEM NESTA PARTÍCULA? NÃO ESTÁ AINDA SUJEITA AO ESPAÇO E TEMPO, AS QUATRO DIMENSÕES QUE NOS PRENDEM. NUNCA ESTARÁ SUJEITA À NORMA QUE CRIA PARA NÓS, CORPOS QUE APENAS PODEM MOVER-SE PARA TRÁS, FRENTE, PARA OS LADOS, PARA CIMA E MAIS ABAIXO AINDA.
SINOPSE
SOLO FÉRTIL surge da necessidade de falar sobre o vazio, o aparente zero.
Da densidade do espaço moldada pela massa de um único músculo que se
move meticulosamente. Deste zero que é, ao mesmo tempo, palco de um
diálogo entre corpo e as partículas (invisíveis) que o rodeiam. Uma ninfa,
fauno, animal ou besta – os olhos não sabem desvendar. Talvez o corpo de
uma mulher que mergulha na areia e se lava na água salgada. Um corpo no
precipício a ponderar o salto – o ir ou ficar. A partir do estudo sobre o sensível surge um momento sobre a solidão, sobre o acto de isolar e potenciar, através da comunicação não verbal, o eco de um gesto minimal, a possibilidade de um big-bang no espaço que este ocupa. Dá-se o habitar o ar rarefeito, com a tentativa de o transportar para cena com leveza e minúcia. Sobre solidão — Sobre plenitude — Sobre descoberta — Sobre o descampado — Sobre o romper — Sobre o cheiro a mar — Sobre o acto de se entregar — Sobre borbulhar (bem lá no interior) — Sobre ficar ou ir.
FICHA ARTÍSTICO-TÉCNICA
DIREÇÃO ARTÍSTICA
Afonso Ferreira Lemos
Inês Carneiro
Coreografia e Interpretação
Inês Carneiro
Desenho de Luz
Afonso Ferreira Lemos
Sonoplastia
Afonso Ferreira Lemos
Daniel Teixeira
Inês Carneiro
Cenografia
Rita Cruz
Figurino e Caracterização
Cristina Leite
Eugénia Maia
Inês Carneiro
Rita Cruz
Fotografia // Vídeo
Daniel Teixeira
Design Gráfico
Filipe Carneiro
Produção
Mariana Lima Costa
Em parceria com Instável — Centro Coreográfico, Teatro Municipal do Porto
Apoios
Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo – Instituto Politécnico do Porto
IBERFIBRAN
InDance
TUP – Teatro Universitário do Porto
PROCESSO
Sinopse
SOLO FÉRTIL surge da necessidade de falar sobre o vazio, o aparente zero. Da densidade do espaço moldada pela massa de um único músculo que se move meticulosamente.
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Uma ninfa, fauno, animal ou besta – os olhos não sabem desvendar. Talvez o corpo de uma mulher que mergulha na areia e se lava na água salgada. Um corpo no precipício a ponderar o salto – o ir ou ficar. A partir do estudo sobre o sensível surge um momento sobre a solidão, o habitar o ar rarefeito, com a tentativa de o transportar para cena com leveza e minúcia.
A partícula
Uma partícula elementar roda, num eixo indeterminado, porque irrelevante, sobre si mesma. Existir, ainda que num plano sub-atómico, implica movimento.
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A partícula gira no único contexto em que não precisa de espaço para que exista movimento: o movimento de rotação que não implica o deslocar do ponto a para o ponto b. Todos os outros movimentos necessitam de espaço e de pontos de referência – outros corpos – para a verificação desse mesmo movimento.
Ao rodar, a partícula cria o tempo. Sem tempo não existe movimento. Quando roda sobre si mesma, a partícula projecta-se num momento diferente do anterior. Vibra com a sua projecção no tempo. A vibração, para existir, precisa de espaço onde projectar as suas ondas. A partícula já existe em tempos e espaços distintos. Já não está onde estava no tempo e no espaço. A partícula a é, agora também b. E c. O que é válido para a, é igualmente válido para b, originando c. O eixo de rotação de a para b e c e (…) z vai-se alterando.
Na última projecção de a (a última letra de um alfabeto muito extenso), o eixo de rotação já é suficientemente distinto do original para iniciar uma nova sequência. A última letra do alfabeto é agora a.
Divagação 2021
Querem-me como fruto imaginário. Deixem-me ser.
Permitam-me respirar fora das vossas mentes. Permitam-me correr por entre o mar,
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dançar com os pés descalços na areia, deitar-me quando o sol se puser.
Posso habitar tal sonho?
– A HISTÓRIA INICIA –
Poder feminino
Sem escolha senão partir sem pernas Proteger-se no rochedo
Observar ao longe Todos os que dançam. Só o quero fazer Dançar
Dançar
Dançar com mil prazer
Pela noite dentro Celebrar a beleza de ser. Torno-me em água Confundo-me na maré
Posso partilhar convosco a história de como …?
Todas as noites observo quem pisa o areal a valsar. Gostava de me juntar, mas não pertenço a este mundo. Observo com distância, até a lua iluminar o espaço e os casais regressarem às suas casas.
Uma noite, após acompanhar os seus movimentos fluídos ao longe, limpei o mar do corpo e vi um pulsar por
entre areias. Elevei aos céus em contemplação — era o meu coração, há muito perdido. Deve ter dado à costa pela madrugada. TODAS AS NOITES CHORO PELO INEXPLICÁVEL ESCÁRNIO.
Pulsava densamente por entre os meus dedos – encostei-o ao ouvido para ouvir os batimentos. Tentei engoli-lo, recuperar a minha alma.
A alma já jaz por entre o areal. Coração ou não, a diferença é mínima.
Permanecerei a contemplar quem se ama. E desejar dançar a valsa.